Avô, mesmo que a gente morra, é melhor morrer de repetição na mão, brigando com o coronel, que morrer em cima da terra, debaixo de relho, sem reagir. Mesmo que seja pra morrer nós deve dividir essas terras, tomar elas para gente. Mesmo que seja um dia só que a gente tenha elas, paga a pena de morrer".
Nadlu de Almeida poeta e escritor africano, conhecido popularmente como Ondjaki (palavra africana, que significa guerreiro em umbundo, língua de origem bantu que é a mais falada em Angola), nasceu em Luanda em 1977.
Artisticamente sua trajetória passa pela atuação teatral e pela pintura. Além de tudo, Ondjaki também é cineasta, autor de roteiros cinematográficos, co-dirige em 2006, ao lado de Kiluanje Liberdade, um documentário que aborda sua cidade natal, Oxalá cresçam pitangas – histórias da Luanda.
O escritor ganhou diversos prêmios entre eles o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco em 2007, por sua obra Os da Minha Rua. Integra a União dos Escritores Angolanos e a Associação Protectora do Anonimato dos Gambuzinos e teve algumas de suas obras traduzidas para o francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco e chinês.
Ondjaki mora desde fins de 2007 no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Fã da literatura brasileira, se interessa muito pela obra de Clarice Lispector e de Guimarães Rosa. Também costuma ler Manoel de Barros, Cláudia Roquette-Pinto, João Paulo Cuenca, Veríssimo, Eric Nepomuceno, entre outros.
Autor de Bom dia Camaradas, recorda com lirismo e encantamento, episódios da sua infância. Recria momentos, cheiros e pessoas para narrar a rotina de uma família de classe média, em Luanda, durante o regime socialista. Uma narrativa onírica que leva os leitores a um “antigamente”, conta histórias da ex-colônia que se tornou independente de Portugal em 1975, quando o poder se manteve com o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), apesar de grande parte do território ter ficado sob o domínio da UNITA. Angola viveu durante décadas mergulhada em conflitos internos, guerras civis que mataram mais de um milhão de pessoas. O escritor dá voz ao menino que um dia foi para narrar histórias vividas no tempo de colégio, no final dos anos 80. Na sua história seus colegas e professores são muito importantes, pricipamente os professores cubanos.
Os cubanos desembarcaram em massa na Angola a partir de 1989, com o fim da União Soviética e o início de um processo de redemocratização, novos acordos de paz foram tratados. Os cubanos começaram a debandar do país e no romance é retratado este momento, quando o autor narra a despedida dos professores e a promessa do fim da guerra.
Além dos personagens da escola, a narrativa traz outras personagens, como o camarada António, empregado da família – que acha que bom mesmo era no tempo que Angola era colônia “no tempo do branco isto não era assim...”-, e a tia Dada, que mora em Portugal e está visitando os parentes angolanos.
Todos os personagens têm nomes e identificações, mas o personagem narrador não é nomeado. É a voz que reverbera no íntimo de todos, a ponte que liga a poesia de perceber o cheiro das manhãs e o espreguiçar do abacateiro à lucidez de compreender a realidade das transformações sociais, dos silêncios dos adultos, da ostensiva presença das forças armadas nas ruas, do medo dos caminhões rurais e do Caixão Vazio, projeção inspirada na lenda urbana presente na infância do autor.
infância é um antigamente que sempre volta. Este livro é muito isso: busca e exposição dos momentos, dos cheiros e das pessoas que fazem parte do meu antigamente, numa época em que angola e os luandenses formavam um universo diferente, peculiar. Tudo isto contado pela voz da criança que fui; tudo isto embebido na ambiência dos anos 80: o monopartidarismo, os cartões de abastecimento, os professores cubanos, o hino cantado de manhã e a nossa cidade de Luanda com a capacidade de transformar mujimbos em factos. Todas estas coisas, mais o camarada António... esta estória ficcionada, sendo também parte da minha história, devolveu-me memórias carinhosas. Permitiu-me fixar, em livro, um mundo que é já passado. Um mundo que me aconteceu e que, hoje, é um sonho saboroso de lembrar. (ONDJAKI, Orelha do livro)
BOA LEITURA!
Abaixo segue entrevista de Ondjaki ao programa Entrelinhas. Nesta entrevista ele comenta diversos assuntos e sobretudo sua história com Luanda.
Referências Bibliográficas
FAGE, J.D.História da África. Portugal: Edições 70, Lda, 1995.
FAGE, J.D., OLIVER, Roland.Breve História da África. Portugal: Terceiro Mundo, 1980.
NIANE, D.T. coordenador do volume. História Geral da África IV. A África do século XII ao século XVI. São Paulo: Ática com participação da UNESCO, 1988.
ONDJAKI.Bom dia camaradas. Rio de Janeiro: Agir, 2006.
"Mesmo sem pai e mãe alguém tinha que me ensinar alguma coisa, quem me ensinou foram os livros" Douglas Soares de Miranda em palestra no UNIFIEO dia 21-10-2010
Mestre em Literatura Brasileira, bacharel e licenciado em Letras pela USP; graduado em Pedagogia pela UNIBAN e diretor de escola na rede pública Municipal hoje o CEU Guaianazes
“É a Literatura um modo de transfigurar e de fazer com que durem mais um pouco, só mais um pouco, na memória do mundo, certos rostos que amamos. Isto para não falar dos seres que não há, que não havia, que Deus, por distração ou por nos dar uma chance, deixou de criar e que passam a existir por força das palavras.”Osman Lins