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6 de nov. de 2010

A poesia da infância de Ondjaki

Nadlu de Almeida poeta e escritor africano, conhecido popularmente como Ondjaki (palavra africana, que significa guerreiro em umbundo, língua de origem bantu que é a mais falada em Angola), nasceu em Luanda em 1977. 




Artisticamente sua trajetória passa pela atuação teatral e pela pintura. Além de tudo, Ondjaki também é cineasta, autor de roteiros cinematográficos, co-dirige em 2006, ao lado de Kiluanje Liberdade, um documentário que aborda sua cidade natal, Oxalá cresçam pitangas – histórias da Luanda.
O escritor ganhou diversos prêmios entre eles o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco em 2007, por sua obra Os da Minha Rua. Integra a União dos Escritores Angolanos e a Associação Protectora do Anonimato dos Gambuzinos e teve algumas de suas obras traduzidas para o francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco e chinês.
Ondjaki mora desde fins de 2007 no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Fã da literatura brasileira, se interessa muito pela obra de Clarice Lispector e de Guimarães Rosa. Também costuma ler Manoel de Barros, Cláudia Roquette-Pinto, João Paulo Cuenca, Veríssimo, Eric Nepomuceno, entre outros.
Autor de Bom dia Camaradas, recorda com lirismo e encantamento, episódios da sua infância. Recria momentos, cheiros e pessoas para narrar a rotina de uma família de classe média, em Luanda, durante o regime socialista. Uma narrativa onírica que leva os leitores a um “antigamente”, conta histórias da ex-colônia que se tornou independente de Portugal em 1975, quando o poder se manteve com o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), apesar de grande parte do território ter ficado sob o domínio da UNITA. Angola viveu durante décadas mergulhada em conflitos internos, guerras civis que mataram mais de um milhão de pessoas. O escritor dá voz ao menino que um dia foi para narrar histórias vividas no tempo de colégio, no final dos anos 80. Na sua história seus colegas e professores são muito importantes, pricipamente os professores cubanos.
Os cubanos desembarcaram em massa na Angola a partir de 1989, com o fim da União Soviética e o início de um processo de redemocratização, novos acordos de paz foram tratados. Os cubanos começaram a debandar do país e no romance é retratado este momento, quando o autor narra a despedida dos professores e a promessa do fim da guerra.
Além dos personagens da escola, a narrativa traz outras personagens, como o camarada António, empregado da família – que acha que bom mesmo era no tempo que Angola era colônia “no tempo do branco isto não era assim...”-, e a tia Dada, que mora em Portugal e está visitando os parentes angolanos.
Todos os personagens têm nomes e identificações, mas o personagem narrador não é nomeado. É a voz que reverbera no íntimo de todos, a ponte que liga a poesia de perceber o cheiro das manhãs e o espreguiçar do abacateiro à lucidez de compreender a realidade das transformações sociais, dos silêncios dos adultos, da ostensiva presença das forças armadas nas ruas, do medo dos caminhões rurais e do Caixão Vazio, projeção inspirada na lenda urbana presente na infância do autor.  

infância é um antigamente que sempre volta. Este livro é muito isso: busca e exposição dos momentos, dos cheiros e das pessoas que fazem parte do meu antigamente, numa época em que angola e os luandenses formavam um universo diferente, peculiar. Tudo isto contado pela voz da criança que fui; tudo isto embebido na ambiência dos anos 80: o monopartidarismo, os cartões de abastecimento, os professores cubanos, o hino cantado de manhã e a nossa cidade de Luanda com a capacidade de transformar mujimbos em factos. Todas estas coisas, mais o camarada António... esta estória ficcionada, sendo também parte da minha história, devolveu-me memórias carinhosas. Permitiu-me fixar, em livro, um mundo que é já passado. Um mundo que me aconteceu e que, hoje, é um sonho saboroso de lembrar. (ONDJAKI, Orelha do livro)


BOA LEITURA!

Abaixo segue entrevista de Ondjaki ao programa Entrelinhas. Nesta entrevista ele comenta diversos assuntos e sobretudo sua história com Luanda.

        






Referências Bibliográficas
FAGE, J.D. História da África. Portugal: Edições 70, Lda, 1995.
FAGE, J.D., OLIVER, Roland. Breve História da África. Portugal: Terceiro Mundo, 1980.
NIANE, D.T. coordenador do volume. História Geral da África IV. A África do século XII ao século XVI. São Paulo: Ática com participação da UNESCO, 1988.
 ONDJAKI. Bom dia camaradas. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

Referências Eletrônicas

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